segunda-feira, 15 de junho de 2015

Existe "Lucro Brasil?"

            Eu sempre quis escrever sobre economia, mas me faltava um pouco de motivação, eu acho. Eu não sou um grande escritor, mas tento o melhor que posso. Nesse meu primeiro texto, vou falar sobre aquele assunto que todo mundo discute, uns alegam que não existe, outros enumeram milhares de exemplos e comparam com o preço que pagamos nos Estados Unidos e aqui. Depois de escrever isso, espero que tudo fique um pouco mais claro sobre o que é o lucro Brasil e de quem é a culpa.
            Nosso estudo começa com uma história de um homem, que tinha muito dinheiro. Ele era americano e havia herdado de seu pai uma montadora de veículos no nordeste dos Estados Unidos. Sua indústria já havia se estabelecido bem no país e agora desfrutava de lucros constantes e previsível crescimento para os próximos anos. Pois bem, esse mesmo homem já havia acumulado certa quantia em dinheiro, e seu objetivo era agora expandir além das fronteiras do seu país materno. Ele via ao sul um país com grande mercado consumidor e competição relativamente baixa, mas um pouco instável. Esse país é o nosso Brasil.
            Ele vem para cá e instala uma fábrica na pacata cidade de Gravataí, compra grandes terrenos, constrói pavilhões colossais e contrata milhares de pessoas para trabalhar em seu novo empreendimento. Após a contabilização de todos os custos e a produção estar quase iniciando, ele precisava de uma ideia de valor de mercado para seu carro, ou de sua margem de lucro nesse país novo e ainda de potencial desconhecido. Seria 10% o ideal? 15%? Talvez 3% seja justo, já que é o valor que muitos alegam ser a margem nas montadoras na América.
Pois saibam que esse valor mínimo já foi estabelecido pelo próprio governo. É sério. Conhecem a taxa Selic? A taxa Selic, é a taxa referencia para pagamento de juros para um dos mais comercializados títulos públicos no mercado, a LFT. Ela também é o título mais seguro no mercado brasileiro, pois o seu credor é o governo brasileiro. Em outras palavras, a chance de não receber é a mesma do governo quebrar, e se o governo quebra o resto vai junto. Voltando, essa taxa hoje, 16 de junho de 2015, está nominalmente em 13,75% ao ano. Em outras palavras, para cada R$ 10.000,00 o governo lhe paga R$ 1.375,00 (ainda existem alguns descontos como imposto de renda e outras taxas).
            Então no investimento mais seguro do mercado, podemos dizer que a margem de lucro é muito próxima aos 13,75% com risco virtualmente ZERO. Agora temos do outro lado nosso gringo, que está aqui no Brasil construindo uma fábrica todinha e empregando pessoas, arcando com despesas trabalhistas, sujeito às oscilações do mercado, às incertezas do governo, ao jogo político e também ao cenário internacional. Pois bem, isso parece um pouco arriscado certo? Logo, aquelas margens de lucro que comentamos antes não parecem mais justas... O governo paga 13,75%, como poderia nosso amigo americano aceitar ter as mesmas margens americanas em um cenário totalmente diferente? Ele não pode, e se o fizesse, estaria perdendo dinheiro, ou então, deixando de ganhar mais, o tal custo de oportunidade.
            Ainda assim, receber o mesmo que o governo paga ainda é pouco. Ele precisa de um prêmio de risco já que está sujeito a tantos problemas e incertezas. Este então é o primeiro fator variável do nosso estudo. Pois o prêmio de risco está muito mais sujeito a percepção de risco da empresa do que de qualquer outro fator aqui apresentado. Logo, podemos ter em mente que investimentos altíssimos (como fundar uma montadora de carros) normalmente exigem uma remuneração melhor ao longo do tempo. É possível então dizer que talvez 10% de prêmio de risco não seja tão alto, se você considerar que existem títulos no mercado que oferecem um prêmio de risco maior simplesmente pelo risco de crédito.
            Até agora, podemos estimar então que num veículo que custe R$ 40.000,00, cerca de 25% deste valor é lucro. Ou seja R$ 10.000,00 por carro. Os outros R$ 30.000,00 são distribuídos em custo de produção, distribuição e impostos. Parece justo não? Infelizmente, não é justo se compararmos ao preço destes veículos comparados aos mesmos em mercados de outros países. Mas aí que entra o mais interessante de tudo e que minha teoria toma um fundo mais sólido.
            Como falamos, os carros nos Estados Unidos são bem mais baratos que no Brasil. Eles têm uma carga tributária menor do que a nossa, tem menos direitos trabalhistas e um mercado muito mais competitivo, porém eu discordo quando colocamos apenas estes valores em vista. O poder aquisitivo americano é muito maior que o nosso, logo o que mais faz sentido é o simples fato que a taxa básica de juros deles, equivalente a nossa Selic, é de 0,25% AO ANO. Isso quer dizer que calculando uma taxa pela outra, a taxa livre de risco deles é 55 vezes menor que a nossa. 55. Vezes. Não é à toa que os títulos americanos são todos pré-fixados...
            Então, vamos comparar, se a margem de um veículo nos Estados Unidos for 3%, podemos considerar que é uma rentabilidade 12 vezes maior que o empresário receberia se investisse em títulos públicos. No caso brasileiro, se a margem for os absurdos 25%, não representa nem o dobro. Agora os americanos parecem bem mais gananciosos com os consumidores deles, não? Isso é simplesmente uma relação de atratividade mediante o mercado e risco.
            Podemos concluir então, que a taxa Selic não é apenas um redutor do crédito e uma medida anti-inflação. Ela também aumenta o parâmetro de lucro do mercado. Vale a pena investir em algo que paga menos do que algo sem quase nenhum risco? Claro que não. Então posso dizer aqui que o tal LUCRO BRASIL é resultado de políticas governamentais mal executadas e resultado do cenário macroeconômico. As montadoras então aumentam o seu lucro ou devem diminuir seus custos a fim de manter a lucratividade. Perceberam que os carros subiram de preço nos últimos meses, mesmo com a queda nas vendas? Demanda e oferta?
            Um adendo, muitos se perguntam o porquê de as montadoras não diminuírem a margem de lucro em tempos de pátios cheios. Bom, sabemos que os carros vão ser vendidos mais cedo ou mais tarde, concorda? Ele não desvaloriza se não estiver rodando. Então, vale a pena dar por exemplo, 5% de desconto para vender agora ou manter e vender mais além? Bom, se alguém descobrir algum investimento que pague 5% ao mês ou mesmo, ao bimestre, nos avise.